Articles

Será que pesquisadores são terapeutas da experiência?

Investigar nosso ecossistema e aceitar que nossas certezas não são tão infalíveis assim pode ser assustador, mas é essencial para guiar tanto nossos movimentos individuais quanto os das organizações.

Depois de mais de dez trabalhando como pesquisadora, ainda tenho a impressão que para alguns clientes fazer pesquisa (de mercado, de design, de consumo etc) é tão assustador quanto frequentar terapia. Será um devaneio meu?

Em muitas reuniões, o diálogo entre o pesquisador, UX research ou estrategista falando sobre pesquisa começa mais ou menos assim:

  • P: Quem sabe a gente vai para a rua falar com alguns consumidores!
  • C: Ah, legal, mas a gente já sabe tuuuudo sobre o nossos consumidores.
  • P: Hum, então será que a gente pode conversar com alguns deles, só para revisitar algumas hipóteses que estamos levantando como possíveis problemas?
  • C: Ah! será? Mas é que uma vez a gente contratou tal pessoa e fez um processo parecido e não lembro de ter vindo nada assim tão relevante. E mais, eu comecei no chão de fábrica, passei por tooooodas as áreas, sinceramente não tem muita coisa que eu não saiba.
  • P: Sim, eu entendo, mas e se a gente trouxesse alguns consumidores aqui para dentro, para ver como seria a reação deles, quem sabe eles enxerguem algo que a gente nem imagine.
  • C: Hum, não sei. Acho que eles vão falar mais do mesmo, as pessoas também nunca sabem o que querem. Uma vez até parei pra falar com um consumidor nosso, ele comentou algumas umas coisas interessantes, mas eu expliquei pra ele que a gente passou por umas mudanças e que aquelas colocações dele já haviam sido levadas em consideração.
  • Fim do diálogo fictício.

Uma coisa é certa: perguntar vai ser sempre melhor do que ficar apenas imaginando. Ou não?

Este insight da proximidade de pesquisa com um processo terapêutico se confirmou, pra mim, ao ouvir um podcast do psicanalista Guilherme Facci, onde ele diz que: “A psicanálise funciona sim, mas não com todas as pessoas, não com qualquer analista e não da forma que você acha que vai funcionar”.

Mas calma, isso não é motivo para desistir da pesquisa — nem da análise. Muito pelo contrário, é apenas um convite a abraçar a pesquisa da forma que for mais confortável para você. (assim como a escolha de qual tipo de terapia funciona melhor para o seu problema). Por que existem sim, muitas possibilidades de buscar respostas dentro da pesquisa. Mas, como na psicanálise, você precisa estar aberto a isso, buscar as ferramentas ideais e não querer controlar o que você pode receber de retorno.

Outro ponto do podcast que me fez ter essa epifania em relação ao processo terapêutico e a pesquisa, foi quando ele apresenta os 4 tempos do método analítico: tempo de ver, tempo de entender, tempo de concluir e tempo da voz neutra.

  1. Tempo de ver: na análise é o momento de fazer grandes perguntas, colocar questões que fraturam a consistência do nosso imaginário, é tempo da queixa. Aqui, chegamos com uma ideia que temos de problema e com muitas coisas que nos incomodam.
  2. Tempo de Entender: aqui começa o “ensaio de alguma resposta”, o início da separação entre saber e verdade.
  3. Tempo de Concluir: onde se tem mais clareza de qual realmente é o problema, e onde se consegue até nomear o padrão instaurado.
  4. Tempo de Voz Neutra: entender que o que queixa no início é a deixa do final, aprender a conviver com condições que são inerentes a condição humana, e o mais interessante “abrir mão de saber mais ou saber tudo”.

Ao transpor isso para a pesquisa, o que estou querendo dizer?

Que no começo teremos muitas dúvidas e questionamentos, ter um ou mais problemas — tanto para fazer terapia quanto para fazer uma pesquisa — é essencial. Após isso, vamos adentrando o segundo e terceiro tempo, que é o que a psicanálise, e mais diretamente Lacan afirma ser o de “operar em um distanciamento entre saber e verdade”. Para mim, essa frase é muito significativa dentro do processo de pesquisar.

Misturar o saber da verdade é algo muito comum quando estamos imersos em algo, como alguém dentro do seu negócio, por exemplo, e por isso, muitas vezes acabamos ficando míopes entre o que achamos que acontece e o que realmente acontece.

A questão aqui não é complexificar ainda mais a ideia de fazer pesquisa, mas de mostrar possibilidades do que ela pode gerar. O que a gente vê no dia a dia é que, muitas vezes, ela pode trazer respostas que o cliente já conhecia- e isso é ótimo, mas ao mesmo tempo, pode ajudar a separar o saber da verdade, mapear quais são os verdadeiros desafios e como tomar decisões melhores a partir disso. O uso da pesquisa, como na terapia, evita que você gaste energia tentando resolver, muitas vezes, o problema errado.

Mas é pesquisador ou analista?

O pesquisador e a pesquisa funcionam como um terceiro, alguém que pára para escutar todos os sujeitos envolvidos. E mais do que decifrar significados, são responsáveis por devolver o mesmo discurso que ouviram, mas com novas lentes e novas possibilidades de caminho.

Lacan foi uma descoberta incrível na minha existência enquanto pesquisadora porque ele apresenta a ideia da lógica na linguagem e propõe mecanismos de análise que vão além da semântica. E é isso que entrega uma pesquisa bem produzida. Será que no fim, em uma tradução livre, nós pesquisadores somos terapeutas da experiência?

obs: temos aqui uma pesquisadora de comportamento com experiência, porém iniciante em psicanálise. Para saber mais recomendo o podcast do Guilherme Facci e também os vídeos do Christian Dunker.

Escrito por Raquel Webber

Related Posts