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No One
O mercado de bem-estar cresceu absurdamente nos últimos anos. E agora, mais do que buscar se sentir bem, a ideia da vez é se sentir melhor. A auto-otimização está na agenda social em todo lugar, caracterizada pela luta e a promessa de que as pessoas podem e devem se aprimorar constantemente, buscando uma “versão ideal” de si mesmos.
A auto-otimização se desdobra num conjunto de discursos e práticas que prometem auxiliar na materialização da melhor versão humana: no corpo, na mente e no comportamento com os outros.
Por isso, o mercado de auto-otimização abraça diversas áreas: saúde e bem-estar, lazer, beleza, carreira, relacionamentos, e até espiritualidade, usando uma gama de técnicas e tecnologias diferentes, como livros e podcasts de autoajuda, dispositivos de automonitoramento, suplementos nutricionais e cirurgias estéticas.

À primeira vista, ser e fazer melhor faz todo sentido. Esse é um discurso tão sedutor que até nos faz questionar: se eu posso ser melhor em tudo, por que eu diria não? Buscar ser melhor é ótimo, mas vale se perguntar: por que? Para que? Para quem?
E ainda: será que a auto-otimização está realmente nos fazendo melhores?
Como explica o filósofo Byung-Chul Han, a sociedade do desempenho transforma tudo em performance. A busca por ser e produzir mais é constante, e quando não vem de fora, o próprio indivíduo se cobra a alcançar mais resultados. Byung aponta ainda que a positividade excessiva junto com a ideia do “yes I can” acabam operando o resultado oposto do que se espera, com o aumento significativo de problemas de saúde mental como o esgotamento e a depressão.
O boom do mercado de auto-otimização parece ser um dos reflexos disso. Hoje, não basta comer um prato de comida: precisamos comer um shake ultraproteico e vitaminado. Não basta passar protetor solar, precisamos investir em produtos e procedimentos de última geração para a pele. Não basta descansar depois do trabalho, precisamos ter um hobby produtivo (e postar sobre ele). Não basta simplesmente sermos, temos que ser nosso melhor, em todos lugares, o tempo todo. E no âmbito social, mais performance leva à mais comparações, egocentrismo e frustração, e menos socialização e vivências prazerosas, nos conectando sem metas ou cobranças.

Enquanto a indústria do bem-estar ainda movimenta milhões anualmente, uma parcela dos consumidores já demonstra sentir uma ressaca desse bem-estar competitivo. O Relatório Global de Bem-Estar da lululemon descobriu que 63% das pessoas em todo o mundo sentem que a pressão para estar bem já está impactando em seu bem-estar, fazendo com que as pessoas sintam um "esgotamento do bem-estar". E para 89% delas, o problema é claro: o autocuidado anda junto com a solidão.
Parte dos consumidores já está percebendo isso, tentando fugir da competitividade pela performance e buscando serviços que os ajudem a de fato encontrar sentido e propósito consigo mesmos, olhando pra dentro mas também com os outros, se conectando com o entorno. Uma empresa que está tentando abraçar esse caminho do meio é a @sisterly_lab, marca de suplementos para mulheres que lançou também uma comunidade ativa com suas consumidoras, que promove o encontro entre elas e a possibilidade de viver experiências coletivas, como mergulhos e aulas de yoga.
Já está surgindo também um novo nicho de influência focado nessa ideia. É o caso da @thewellbeingscientist_, que usa o conteúdo leve nas redes sociais para desconstruir as ideias já enraizadas sobre o bem-estar ligado à performance, incentivando os seguidores a encontrarem a melhor versão de si mesmos a partir de um autocuidado mais holístico, focado em melhores escolhas individuais e coletivas.
Essa é uma resposta natural, afinal, sempre que esticamos a corda para um lado, tende a surgir junto um movimento contrário. É possível que depois do cansaço com a era “ser a melhor versão de si mesmo”, possamos ver um movimento mais focado em “ser você mesmo”. Se a falta de cuidados consigo mesmo é um problema, o excesso também é. Uma coisa permanece sendo verdade: as pessoas sempre irão desejar viver e socializar quem elas realmente são. E as experiências mais marcantes são aquelas que conseguem nos fazer sentir o prazer de simplesmente estarmos vivos.
Até a próxima mordida. 🫦
Por Veronica Portugal