28 Julho

Cognição

No One

Quanto menos precisamos pensar, menos pensamos de fato?

Vivemos uma revolução tecnológica tão acelerada que nem temos muito tempo de digerir e entender tudo que está acontecendo. A inteligência artificial entrou em cena rapidamente, nos apoiando nos estudos, no trabalho e até nas decisões pessoais. Tudo ficou mais fácil, mais rápido e mais conveniente - mas, como toda conveniência, essa também tem um preço.

 

Boa parte dessa transformação vem dos chamados Modelos de Linguagem de Grande Escala, os LLMs, como o ChatGPT. Eles têm revolucionado a forma como trabalhamos, aprendemos e nos comunicamos. Treinados com trilhões de palavras, esses modelos são capazes de gerar textos coerentes, responder perguntas, sugerir ideias e simular conversas com fluxos envolventes. Com isso, tornaram-se rapidamente ferramentas para aumento de produtividade. Se antes precisávamos buscar respostas por nós mesmos, hoje basta formular uma pergunta ou dar um comando (prompt) e o LLM responde rapidamente.

 

O problema nisso tudo está em: quanto menos precisamos pensar, menos pensamos de fato. E, com isso, um novo comportamento se apresenta: o de terceirizar o pensamento. Estamos nos acostumando a pensar menos e chamando isso de eficiência.

Estudos recentes sugerem que, embora os LLMs reduzam a carga mental no curto prazo, eles também podem estar diminuindo o engajamento com o conteúdo, impactando habilidades como pensamento crítico, imaginação, resolução de problemas e memória.

 

Por que isso nos chamou a atenção?

Porque a naturalização desse processo deve nos manter atentos.

Há uma sensação generalizada de que “otimizar a vida” é sempre positivo. De fato, para muitas situações, realmente pode ser. Mas quando a agilidade passa a engolir o pensamento crítico, perdemos algo essencial da nossa humanidade: a construção ativa do pensamento.

Um estudo recente do MIT, Your Brain on ChatGPT, comparou o desempenho da atividade cerebral de 54 voluntários que foram divididos em três grupos enquanto escreviam redações: sem ferramentas, usando Google e usando ChatGPT. O resultado mostrou que o grupo que utilizou IA apresentou menor ativação neural, com queda expressiva nas conexões cerebrais ligadas à memória, raciocínio e atenção. Em números: de 79 conexões, o grupo assistido por IA caiu para 42. Ao longo de algumas semanas, esses mesmos usuários se tornaram progressivamente mais dependentes da ferramenta. A mente, nesse cenário, começa a operar em modo automático.

Esse fenômeno tem sido tratado como sedentarismo cognitivo. Um tipo de atrofia mental que pode ser causada pelo uso superficial do cérebro. Pesquisar e elaborar exige mais trabalho, mas também gera maior satisfação no processo, e justamente por isso, fortalece conexões neurais. Quanto mais pensamos, melhor pensamos, basicamente.

No fundo, o problema não é sobre a IA em si, mas sim a dependência excessiva dessas ferramentas - e sobre como o pensamento crítico, a criatividade e até a nossa capacidade de lembrar, interpretar e argumentar podem ser impactadas por esse novo padrão de comportamento.

 

E o design nisso tudo?

Na No One, acreditamos na máxima que "tudo que desenhamos, nos desenha de volta". As experiências moldam nossos comportamentos, e desenhar com intenção pode ser a chave para, de uma forma estendida, projetar o futuro que queremos.

Se, como falamos, hoje um dos comportamentos dominantes é o de terceirizar o esforço de pensar, nos perguntamos: como os produtos e experiências que estamos desenhando estão fomentando esse formato? Um clique, uma resposta. Uma dúvida, uma recomendação. Estamos delegando não apenas tarefas, mas também nossas decisões, interpretações e o próprio processo de elaboração de ideias e soluções.

A IA é uma realidade instaurada. E temos sim que aproveitar esse momento, buscar agilidade, ampliar nossa produtividade. Mas como fazer isso ainda deixando combustível para alimentar nossas redes neurais? Como desenhamos nossas interações para preservarmos o melhor da IA e o melhor do ser humano?

 

E você, tem sentido o cérebro “mais preguiçoso” desde que começou a usar ferramentas de IA?

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