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No One
Se a gente achava que a IA iria vir para nos ajudar nas tarefas mais operacionais, que envolvem grande processamento de informação e dados mais “técnicos”, estávamos muito enganados.
Uma das pesquisas mais recentes sobre o emprego da IA, feita pela HBR no mês passado, mostrou que mudamos nosso principal uso de IA: em 2024, focávamos no apoio na criação e edição de conteúdo. Em 2025, o primeiro lugar passou a ser ocupado pelo apoio pessoal, com a IA sendo usada para terapia e companhia.
É interessante (e talvez um pouco assustador) observar como a IA rapidamente tem ocupado posições tão humanizadas. Afinal, é difícil pensar numa profissão mais humana que a psicoterapia. Quem está usando a IA com essa finalidade relata dois principais motivos para tal: terapia com IA é de graça (ou não), e há quem diga que é também mais eficiente, porque a IA direciona ações práticas e não julga seu interlocutor.
Parece que experiências prévias negativas com seres humanos influenciam na forma como as pessoas buscam companhia e aconselhamento com a IA, e isso nos inquieta por muitos motivos. Afinal, o que estamos esperando da troca humana?

Se a ideia é retirar soluções rápidas e fáceis, realmente, talvez conversar com uma pessoa ou com um grupo de pessoas não seja a melhor opção. Afinal, de um lado temos a IA, que “pensa” em poucos segundos e nos devolve soluções. De outro, temos pessoas, que são complexas, demoram para pensar, colocam suas emoções no meio da conversa, puxam outras memórias e experiências pessoais. Mas não é justamente aí que mora a essência do relacionamento humano?
(Con)viver com humanos pode ser contraditório e confuso, mas é dessa contradição que nasce a nossa capacidade de se relacionar, debater ideias, resolver problemas, chegar em consensos e acordos que são melhores para o grupo. Trocarmos com a IA para resolver problemas pessoais podemos ganhar soluções mais rápidas, mas será que são as melhores soluções?
No design, vimos nos últimos anos o discurso human and user centric tomar conta. Agora, se damos uma volta pelas notícias, temos a impressão que a IA está chegando para nos substituir de vez, e de forma bem rápida. Num mundo que já prioriza valores como rapidez, eficiência e lucros exorbitantes a qualquer custo, parece que fica mesmo difícil para os seres humanos competir com a IA.
Mas se olharmos o cenário atual como prévia do que está por vir, podemos prever pessoas (e empresas) ainda bem perdidas nas suas relações com a IA, sem saber para onde vão ou o que vão fazer de fato com tudo isso. O design pode ocupar um lugar estratégico ainda mais crucial, com a possibilidade de investigação artesanal e curadoria de dados em diversos sistemas complexos - e equilibrando o potencial de rapidez e pragmatismo da IA com a profundidade e riqueza das trocas humanas.

Essa dinâmica fica ainda mais importante quando pensamos no nosso desenvolvimento enquanto indivíduos e profissionais. Como aponta o World Economic Forum, precisamos de lideranças centradas no ser humano, que entendem que a IA pode assumir parte das tarefas humanas, ao mesmo tempo em que abre oportunidade para que humanos façam o seu melhor, produzam com autenticidade, criatividade, conexão e inteligência emocional.
As chamadas soft skills são habilidades humanas complexas - e sim, ninguém nasce sabendo delas. É justamente da convivência com outros seres humanos que desenvolvemos aquilo que somos melhores em fazer enquanto espécie. Temos até neurônios especializados em aprender pela observação de outras pessoas - neurônios que nos possibilitam construir linguagens, compreender emoções e desenvolver empatia. Em outras palavras, quanto mais interagimos, mais nos tornamos melhores em nos relacionar. Mas, se priorizarmos a troca relacional com a IA, estaremos fechando portas de trocas humanas ou abrindo janelas para outras percepções?
Até a próxima mordida. 🫦
Por Veronica Portugal