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No One
Somos cercados de estímulos. São plataformas, formatos, vídeos, notificações, playlists, feeds infinitos. Estamos sempre vendo algo, mas cada vez menos prestando atenção. Se antes a propaganda tentava roubar a sua atenção, hoje ela só precisa te encontrar distraído. E sejamos sinceros: estamos sempre assim.
Nesse novo cenário, a publicidade não disputa espaço com o conteúdo, ela se mistura dentro dele de maneira inevitável e embutida. Os anúncios estão deixando de interromper e passando a habitar. Eles não aparecem mais entre os conteúdos, agora eles são o conteúdo. Estão no meio do seu episódio, no tempo de espera da sua playlist, no resultado de busca e no vídeo que começa sozinho enquanto você só queria relaxar.
Com os reajustes dos streamings, pagar pelo plano que sempre teve não é mais o bastante: você tem que pagar mais pelo direito de não ser interrompido, algo que antes era implícito agora virou um produto premium. A longa espera pelo botão “pular” é a condição para ver mais um episódio ou apenas para continuar assistindo. Esse é o pedágio por não pagar mais para ter uma experiência sem anúncios.
Essa realidade chegou — e ela está patrocinada.
Muitos dos conteúdos das redes de entretenimento têm nos deixado anestesiados, e a distração virou terreno fértil para inserir anúncios e impulsos de compra. Quanto mais imerso e vulnerável você está, mais facilmente é convertido.
Entre os territórios onde a distração se tornou mais lucrativa, um merece atenção especial: os jogos de aposta e plataformas de bets. Com aparência de passatempo, eles operam como cassinos de bolso. Estimulam a permanência, borram a noção de risco e transformam a euforia da aposta em um hábito. Quanto mais distraído o jogador está, mais fácil é perder o controle. A publicidade que impulsiona esse mercado não vende só um serviço, ela normaliza uma lógica de vício disfarçada de entretenimento.
A lógica dos anúncios invadirem nossa intimidade também foi apresentado como ficção na última temporada de Black Mirror. No episódio Pessoas comuns, Amanda, a protagonista, tem parte do cérebro substituída por um chip fornecido por uma big tech. Ela aceita o plano gratuito, mas esse plano vem com anúncios - logo se descobre que esse anúncios não aparecem na tela, e sim surgem dentro da mente da personagem. No meio das conversas no seu dia-a-dia, Amanda é atravessada pela sua "nova" consciência para verbalizar uma propaganda que é associada ao contexto das situações. Sua existência vira canal publicitário. Se não quiser mais passar por isso, ela precisa pagar por planos sem anúncios continuamente.
Talvez o problema não seja apenas o excesso de anúncios, mas sim a ausência de consciência sobre o espaço de influência que eles ocupam em nossas vidas. Em um cenário onde tudo entretém, distrai e estimula, vale perguntar: estamos fazendo escolhas conscientes ou apenas sendo conduzidos?
Hoje, assistimos marcas vendendo a promessa de nos livrar de anúncios se pagarmos mais por isso. Mas o que isso revela sobre o que estamos criando?
A promessa do “assine para remover os anúncios” parece uma solução. Mas também evidencia um problema: a propaganda deixou de ser convite e virou uma condição. Criamos experiências tão ruins com anúncios que o próprio mercado passou a vendê-las como algo a ser evitado. Isso não é apenas sobre estratégia comercial, mas sim sobre como construímos um modelo de negócios baseado em incômodos. Seguimos otimizando campanhas, mas esquecemos de redesenhar as ofertas.
Entre algoritmos que guiam escolhas, jogos que confundem prazer com risco e anúncios disfarçados de entretenimento, fica a pergunta: estamos projetando experiências que respeitam as pessoas ou aproveitando os momentos em que elas estão distraídas?
No fim, o que sobra depois do anúncio:
Audiência ou comunidade?
Atenção ou distração?
Conexão ou incômodo?
Por Júlia Duso
Até a próxima mordida 🫦