30 Junho

Fricção

No One

A realidade tem fricção.

A "fricção" está nos atritos naturais da vida: nas esperas, nas filas, nas burocracias, nas interações humanas imprevisíveis, ao conversar com alguém que discorda de você, na necessidade de tomar decisões com base em contexto e esforço, etc. Esses “atritos” parecem incômodos, mas cumprem funções importantes: nos forçam a refletir, negociar, escolher e, sobretudo, a estarmos presentes nas experiências que vivemos.

Já as interfaces digitais têm procurado como missão eliminar qualquer fricção: compras em 1 clique (Amazon), scroll infinito (redes sociais), recomendações automáticas (YouTube, Netflix, Spotify), chatbots e IAs que respondem por você. Essa lógica segue o ideal da experiência fluida e sem interrupções, e impulsiona a corrida das empresas de tecnologia em reduzir a fricção e criar interfaces que adivinham o que você quer antes mesmo de você pensar.

Porém há um outro lado nessa questão: a ausência de fricção durante a pode nos colocar em um modo dependente. Essa substituição da fricção por uma “eficiência” digital aos poucos vai criando efeitos colaterais. Sem atrito, não há esforço. Sem esforço, não há consciência do processo. Seja comprando em um clique, deslizando por vídeos que nunca param ou aceitando termos no automático, a experiência que estamos almejando hoje é aquela onde você não precisa pensar nem pausar.

Indo mais longe, notamos que quanto menos fricção, mais informação consumimos passivamente e acabamos não participando ativamente das decisões acerca daquelas ações. Retirar todos os obstáculos pode parecer vantajoso, mas também empobrece a nossa capacidade de pensamento crítico. Esses incômodos, por menores que pareçam, criam espaço para o discernimento.

 

 

Por que isso chamou a nossa atenção?

A nova missão de Sam Altman (OpenAI) e Jony Ive (ex-Apple) busca justamente o oposto da fricção: uma interface invisível. Um dispositivo sem tela, sem toque, sem esforço, mas com total acesso à sua rotina, ambiente e atenção. Eles apresentam uma visão ambiciosa de futuro: um dispositivo que compreende o contexto humano de forma contínua e natural, eliminando a mediação tradicional entre usuário e tecnologia. A proposta parece futurista (e é), mas levanta questões importantes: o que acontece quando a interface se antecipa tanto que apaga o ato de decidir? E ao remover completamente a fricção, o que sobra da nossa autonomia?

Quanto mais suave a jornada, mais difícil perceber para onde estamos indo e quem está nos conduzindo. À medida que nos tornamos mais passivos nas interações digitais, a linha entre autonomia e automatismo vai ficando borrada. Fluidez demais pode parecer conveniência, mas também pode significar que você não participa mais tanto assim das suas escolhas.

 

E o design nisso tudo?

O design de interfaces sempre buscou simplificar, reduzir passos, evitar "cargas cognitivas”. É natural: ninguém quer um app que dificulte a vida. Mas há um limite entre remover barreiras e remover consciência. O problema é quando o design elimina o atrito a ponto de também eliminar o senso de consequência e agência.

A obsessão pela fluidez nos trouxe até aqui. Mas talvez agora o papel do design seja outro: não o de apagar todos os obstáculos, e sim escolher com cuidado quais fricções merecem existir. Por que estou tornando isso mais rápido? O que o usuário deixa de perceber ao eliminar esse passo? Não é simplesmente remover obstáculos, mas decidir quais manter e por quê.

Nem tudo precisa ser fácil e instantâneo. Às vezes, uma confirmação extra antes de comprar algo, um aviso claro sobre termos de privacidade ou uma pausa antes de compartilhar resgatam o nosso senso de responsabilidade.

 

Estamos facilitando as experiências a ponto de não termos mais consciência das nossas decisões.

E se não temos mais consciência das nossas decisões, o design está à serviço de quem?

 

Até a próxima mordida 🫦
Por Júlia Duso

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