
No One
No meio de crises climáticas, tensões políticas, aceleração tecnológica e mudanças culturais é como se os nossos horizontes de futuro estivessem sendo esmagados. Falamos sobre tendências, inovação, tecnologia e transformação o tempo todo, mas também percebemos que há uma crescente dificuldade de imaginar futuros e caminhos realmente diferentes. Em vez de imaginar e construir cenários, reagimos e administramos as incertezas.
Essa dificuldade tem sido descrita como uma crise da imaginação coletiva. E aqui, não estamos falando da falta de criatividade individual, mas uma dificuldade compartilhada de imaginar novos modelos sociais, econômicos e culturais. De visualizar caminhos alternativos, narrativas diferentes e possibilidades que não sejam apenas a continuação do que já existe.
O sociólogo C. Wright Mills chamava isso de imaginação sociológica: a capacidade de enxergar além da experiência pessoal e perceber como nossas decisões, desejos e medos são construídos dentro de contextos coletivos. Quando essa capacidade enfraquece, nossas soluções também se tornam limitadas. Ficamos presos ao que já conhecemos, reproduzindo estruturas, ideias e modelos.
Para tornar o futuro novamente imaginável. Sem imaginar, fica difícil transformar.
O "achatamento" da imaginação nos deixa vulneráveis a narrativas que não nos pertencem. Quando a imaginação coletiva enfraquece, nossa visão de mundo se estreita e a inovação também desacelera. As soluções passam a repetir lógicas existentes, os sistemas se tornam mais rígidos e o futuro começa a parecer apenas uma extensão do presente.
A retomada da imaginação não acontece por acaso. Ela surge como resposta direta a um cenário de policrise (crises simultâneas ambientais, sociais, políticas, econômicas e tecnológicas). Esse movimento também aparece na ascensão da ficção climática (Cli-Fi), um gênero que cresce à medida que eventos ambientais deixam de ser abstratos e passam a fazer parte da experiência cotidiana. Por exemplo, o livro A Extinção das Abelhas, inspirado na morte massiva de abelhas no sul do Brasil, mostra como a imaginação surge como forma de tornar tangível uma crise que, nos relatórios científicos, muitas vezes permanece abstrata, ou apenas difícil de imaginar.
Nos últimos anos, obras brasileiras passaram a explorar futuros marcados por crise ambiental, reorganização social e novas formas de coexistência com a natureza. Livros como O deus das avencas, Água turva, Ressuscitar mamutes e Foi acabar bem na nossa vez refletem esse deslocamento: imaginar o futuro virou uma maneira de processar o presente.

A imaginação passa a ser usada como ferramenta de antecipação, alerta e construção de consciência coletiva.
Esse tipo de narrativa também reflete o que se convencionou chamar de Literatura do Antropoceno: reinterpreta a relação entre humanidade e natureza, com histórias em que a natureza deixa de ser cenário e passa a ser protagonista. Animais, rios e florestas ganham voz, questionando o antropocentrismo e propondo novas formas de coexistência.
E é nesse mesmo cenário em que cresce também uma disputa pela própria imaginação do futuro. No livro Ficção científica capitalista, o autor analisa como bilionários, como Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg, vêm construindo narrativas sobre, imortalidade digital, expansão tecnológica e colonização espacial, ignorando as crises na Terra. Essas narrativas moldam expectativas sociais e colonizam o imaginário coletivo do futuro.

Essas visões não são apenas ficção. Elas influenciam investimentos, políticas e expectativas sociais. O futuro passa a ser um território de disputa político e econômico. Esse movimento foi um dos grandes temas discutidos no SXSW 2026, onde especialistas apontaram a imaginação como um dos ativos mais valiosos do presente. A capacidade de imaginar futuros desejáveis passa a ser vista como uma vantagem competitiva para empresas, governos e sociedade.
Nesse contexto, imaginar além de ser uma habilidade criativa, ela passa a ser uma competência estratégica. Imaginar é uma forma de construir direção.
Se o futuro está em disputa, as marcas e designers ganham a possibilidade de apoiar a imaginar e construir o que vem depois intencionalmente. Portanto, a Imaginação Estratégica torna-se um ativo econômico relevante, e é importante que as marcas tenham um ponto de vista sobre o mundo que elas desejam ajudar a construir.
Essa mudança também aparece no campo da estratégia e inovação. Para Martin Weigel, a própria disciplina precisa ser revisitada porque estratégia é, essencialmente, um ato humano de imaginação, é a capacidade de visualizar cenários ainda inexistentes e orientar decisões a partir deles. Quando a imaginação enfraquece, a estratégia também perde potência.
A oportunidade está no pensamento especulativo, defendido por Anthony Dunne e Fiona Raby, que propõe exatamente isso: usar a imaginação e a narrativa para criar cenários possíveis e desejáveis. Marcas que aplicam o design para prototipar deixam de ser apenas fornecedoras para se tornarem líderes de pensamento de longo prazo. Afinal, não se trata apenas de marcas respondendo ao mercado, mas sim de terem a capacidade de decidir ativamente que tipo de mundos são possíveis de imaginar e criar.

Esse movimento já vem sendo adotado por empresas que incorporam narrativas especulativas em seus processos de inovação. Nike, Google, Sony já colaboraram com futuristas, designers e escritores de ficção científica para imaginar novos cenários e outras possibilidades de futuros. Em paralelo, iniciativas institucionais reforçam a imaginação como competência estratégica. Programas como o Futures Literacy & Foresight, o Foresight Observatory e o Festival Futuros Possíveis surgem para estimular o pensamento especulativo e a construção de cenários futuros.
E se a maior inovação para o agora não for tecnológica, mas imaginativa e coletiva? Porque, no fundo, imaginar sempre foi o primeiro passo de qualquer transformação.
Por Júlia Beatricce Duso.
Até a próxima mordida.