
No One
No final de cada ano, há alguns clássicos, e um deles é a sequência de relatórios de tendências que revelam os padrões emergentes para os negócios e os consumidores. Para 2025, esses relatórios destacam a crescente digitalização, práticas de sustentabilidade, modelos de negócios baseados em economia compartilhada, personalização, entre outros. Mas já parou para pensar o que faríamos se não tivéssemos acesso a esses dados? Sem quantificar tudo? Não estamos aqui para defender o fim desse tipo de conteúdo, mas e se olhássemos para nossas estratégias de uma forma mais ingênua? Segundo o dicionário, ingenuidade é a qualidade de ser simples, puro, sem malícia. E talvez seja exatamente isso que o mercado precisa: um olhar mais genuíno, livre das métricas rígidas, capaz de explorar novas possibilidades e abraçar o inesperado.
Nossa CEO, Mariana Gutheil, trouxe essa provocação ao questionar o que aconteceria se voltássemos a uma mentalidade mais exploratória em um mundo cada vez mais obcecado por métricas. Afinal, algo que vemos sendo amplamente repetido é que o que nos diferencia das inteligências artificiais é a nossa humanidade e, na prática, isso está diretamente ligado à nossa criatividade. No entanto, até essa percepção parece ter entrado no modo automático.
O curioso texto O paradoxo da ingenuidade e a inteligência artificial (de)generativa aborda como a ingenuidade pode ser uma dádiva ou uma morte, dependendo de como a encaramos. Muitas vezes vista como fraqueza, ela é, na verdade, uma qualidade essencial para a sobrevivência e para a preservação da criatividade humana. É necessário preservar a crença na capacidade humana de criar e se expressar de maneira única, sem permitir que a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, substitua ou controle essa criatividade.

Se todo mundo tem o mesmo dado, como podemos entregar algo realmente diferente? Talvez a ingenuidade seja uma das formas de resgatar um consumidor que está com neofobia — que é o medo ou aversão a novidades —, resultado de uma certa fadiga pelo excesso de informação. Já vimos aqui as expressões de infodemia e a própria "sociedade do cansaço" de Byung-Chul Han. Outro ponto que soma a isso é a sensação de que tudo está igual, os lançamentos são sequenciais, e não há espaço para o "alumbramento" — aquele sentimento de encantamento e descoberta que se tinha ao experimentar algo novo, algo genuíno. A ingenuidade pode ser uma resposta a isso já que, ao abraçar a curiosidade e a simplicidade, ela tem o poder de revitalizar a experiência do consumidor, restaurando o encantamento perdido.
Uma das palavras que mais se reproduz em qualquer relatório é autenticidade (inclusive, começamos nossa Bite de 2024 com esta palavra). O 2025 Global Consumer Trends da Mintel destaca que os consumidores estão em busca de experiências mais autênticas e imersivas. A Accenture, em seu Life Trends 2025, observa que as pessoas estão procurando por experiências mais sensoriais e genuínas. E os criativos da @ooo.agency, em sua newsletter, fazem uma provocação interessante ao afirmar que talvez a inovação esteja no caos, afinal: "deixar fluir requer muita coragem — mais do que muitos imaginam. Abandonar a noção de controle e deixar fluir é muitas vezes… caótico".
Perdemos a experiência direta do mundo. Passamos ao lado de uma árvore, nomeamos-na como "árvore" em uma fração de segundo e rapidamente seguimos em frente. Perdemos o encantamento e a pureza da descoberta.
O Futuro das Coisas
Neste início de ano, a reflexão que fazemos, até mesmo para nós, enquanto designers, é: em um mundo tão metrificado, quantificado em números e análises, ser ingênuo no design significa não apenas seguir tendências ou responder a dados, mas também resgatar a essência do que realmente importa para as pessoas. Abordar problemas sem pré-julgamentos, questionar o status quo e olhar para as situações com frescor e curiosidade, como se estivéssemos descobrindo o mundo pela primeira vez. Isso exige um compromisso com a transparência, a humanidade e a busca pela simplicidade.
Bom início de ano!
E até a próxima mordida 🫦