
No One
Um termo está sendo criado para definir a sensação de ansiedade e pânico que algumas pessoas sentem quando estão sem fazer nada: leisurephobia, ou “lazerfobia” para abrasileirar. O psicólogo e escritor Rafael Santandreu comentou para o El País: “Algumas pessoas preferem ficar ocupadas o dia todo, não querem parar porque têm tempo de pensar demais”. Transformamos o ócio em algo a ser temido, e não cultivado?
Se você trabalha com criatividade de alguma forma, certamente já ouviu falar do termo “ócio criativo”, que foi cunhado pelo sociólogo Domenico de Masi para explicar a importância de termos espaço de tempo dedicado ao entretenimento, à cultura, a consumir conteúdos de forma livre, para assim construir novos repertórios mentais e alimentar novas ideias.

Mesmo sendo importante, estamos nos afastando cada vez mais do ócio. Uma pesquisa do Ipsos com o Nubank mostrou que os brasileiros têm apenas 26% do seu tempo de vida dedicado ao tempo livre, e que passamos 74% do nosso tempo ocupados ao longo de toda a vida. Mas isso nem sempre é escolha, já que boa parte das pessoas queria ter mais tempo livre.
Quando olhamos para a forma como as pessoas vivenciam e percebem o seu tempo hoje, existe um paradoxo. Estamos cada vez mais ocupados, mas desejamos cada vez mais ter tempo para não fazer nada. As forças que afastam as pessoas das atividades que realmente desejam são várias, mas esse “desejo reprimido” de ter mais tempo acaba se refletindo em todas as áreas da nossa vida, do trabalho ao lazer.
No campo do trabalho, novos termos surgem todo dia para tentar explicar as transformações e os choques que estão acontecendo. Mas no centro de toda a discussão está ele: o tempo. Estamos diante de uma geração preguiçosa, ou de uma geração que não quer mais trabalhar 18h por dia e que deseja acordos claros para ter seu tempo respeitado?
Isso sempre nos chama a atenção. Aqui na No One, implementamos nossa short friday em 2023 - terminamos o dia de trabalho às 13h na sexta-feira. O que começou como um teste no verão, ficou para sempre. São algumas horas a mais para descansar, colocar leituras em dia, iniciar o fim de semana mais cedo, ou só não fazer nada e voltar mais energizado na segunda. Temos paixão por esse assunto e vemos na prática o valor que ter tempo livre garantido gera para as pessoas. E de bônus, um time tão produtivo quanto antes, e com mais autonomia.
No design gráfico ou digital, a importância do espaço em branco é muito conhecida. Numa tela ou numa peça gráfica, ter espaço vazio é essencial para trazer organização visual e mental, e para nos ajudar a focar no que é mais importante.
Essa é uma reflexão que pode ir além da forma como desenhamos uma tela. Estamos garantindo espaço para as pessoas pensarem e refletirem por si mesmas, ou apenas preenchendo todas as lacunas possíveis?
Na ânsia para concentrar a maior quantidade de informações no menor tempo disponível, acabamos por retirar os espaços para a reflexão, para o ócio, ou para o tédio inquietante que nos permite ter novas ideias. Quem nunca teve uma ideia ou resolveu um problema no chuveiro? É justamente nesse momento ocioso que nos damos a oportunidade de fazer novas conexões mentais que alimentam a criatividade. Vamos praticar o ócio intencional?
Por Veronica Portugal
Até a próxima mordida 🫦