Abril 2025

Sociabilidade

No One

Nunca estivemos tão conectados digitalmente, e ao mesmo tempo nos sentindo tão sozinhos.

A ironia do nosso tempo de nos sentirmos mais sozinhos do que nunca, mesmo rodeados de conexões: estamos a um clique de distância de qualquer pessoa, mas a sensação de desconexão nunca pareceu tão real. A chamada “epidemia da solidão” se instala silenciosamente em meio às notificações, aos feeds infinitos e aos áudios acelerados no WhatsApp. E, apesar de estarmos digitalmente hiperconectados, as relações humanas – genuínas, profundas e imperfeitas – parecem cada vez mais difíceis.

 

A saúde social, tema central da palestra de abertura do SXSW 2025, surge como um novo pilar do bem-estar – ao lado da saúde mental e física. O sentimento de solidão não depende de idade e se infiltra em todos os contextos – das salas de aula aos escritórios, das mesas de jantar às redes de entretenimento. A qualidade das nossas conexões humanas tem sido um reflexo direto da forma como vivemos. Quanto mais imediatistas e funcionais se tornam as interações, mais frágeis parecem os vínculos. Criamos laços que exigem pouco e, por isso, oferecemos menos. É como consumir calorias vazias: aparentemente satisfatório, mas insuficiente para aquilo que, de fato, nos fortalece. A era digital nos conectou, sim — mas será que nos ensinou a conviver?

 

A consequência se revela silenciosa — uma sensação de vazio emocional que, como alerta o médico Drauzio Varella, impacta não só a saúde mental, mas também a física, tornando-se fator de risco real para o bem-estar.

 

 

Se antes imaginávamos que a tecnologia nos conectaria, hoje nos perguntamos: estamos realmente mais próximos ou apenas mais online?

Por que isso nos chamou atenção?

O uso excessivo de telas, o vício em estímulos rápidos e as interações filtradas e editadas nos afastam da complexidade das trocas mais reais. Em nome da conveniência, muitas vezes evitamos o desconforto que conversas difíceis podem trazer. Mas, como qualquer músculo, a sociabilidade também precisa ser treinada. A chamada “musculatura social” envolve habilidades como saber discordar e construir vínculos que não sejam apenas de “baixa manutenção”.

 

Mas cultivar vínculos reais exige mais do que disponibilidade. Exige disposição ao desconforto. No livro Uncertain: The Wisdom and Wonder of Being Unsure, a autora Maggie Jackson reflete sobre o valor da dúvida e da divergência como elementos centrais na construção de relações e novas ideias. Estudos mostram, inclusive, que equipes que sabem discordar de forma construtiva inovam mais, tomam decisões melhores e performam de maneira mais eficiente. O conflito saudável estimula a escuta ativa, a empatia e o pensamento crítico – ingredientes essenciais não apenas para o trabalho, mas para qualquer relação significativa.

 

Esse retrato é especialmente visível entre os jovens. Diversos estudos vêm apontando os efeitos do uso excessivo de telas na infância e adolescência: queda de desempenho acadêmico, aumento nos níveis de ansiedade e dificuldade de desenvolver habilidades socioemocionais básicas. A série Adolescência, da Netflix, escancara esse cenário ao retratar, de forma dura e sensível, como os adolescentes estão moldando suas relações na era digital. Nesse contexto, a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares em escolas, surge como resposta institucional a um problema que já não é mais invisível: os impactos no aprendizado, na concentração e na saúde mental dos jovens.

 

E o design nisso tudo?

 

Se estamos vivendo um momento em que a solidão se torna um desafio coletivo, não basta apenas reconhecer isso como problema. É preciso redesenhar as interações – tanto no digital quanto fora dele – com mais intenção, profundidade e humanidade. E se o verdadeiro desafio não for apenas entender o que o consumidor quer, mas o que ele sente – e, além disso, o que está faltando nas conexões que oferecemos?

 

Estamos projetando experiências que acolhem, criam pertencimento e estimulam vínculos reais? Ou seguimos apenas otimizando as velhas métricas e indicadores, enquanto perdemos de vista o que realmente importa? No fim, o que estamos construindo: audiência ou comunidade?

 

 

Até a próxima mordida 🫦

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