23 de fevereiro

Latinidade

No One

2026 é o ano da cultura latina, para dentro e para fora

 

No LinkedIn, no YouTube, na TV, nas redes sociais: a latinidade nunca esteve tão em alta.

A maior presença de filmes latinos nas premiações de cinema mundial, que historicamente são dominadas por filmes de língua inglesa, e da música latina nos grandes momentos musicais do ano, como o Grammy, o Super Bowl e o Festival Todo mundo no Rio, que anunciou a cantora Shakira como atração do ano, evidenciaram a força que a cultura da América Latina tem tido nesse início de 2026.

 

No Brasil, além de a gente só ouvir falar de Wagner Moura e Bad Bunny há semanas, o hype da latinidade na cultura pop mundial tem despertado também um sentimento mais complexo: e não é que somos latinos mesmo?

Instagram: youtubebrasil

Como mostra a série de vídeos do historiador Kenji, a noção de fazer parte da cultura latina ainda é nova para muitos brasileiros. Embora tenhamos a presença de novelas mexicanas, artistas latinos e até do seriado Chaves como partes muito fortes da cultura brasileira, a língua ainda é uma barreira que nos separa do resto do continente.

 

Porém, a visibilidade crescente que a cultura pop latina tem tido nas grandes mídias e nas redes sociais pode representar para o Brasil e para muitos brasileiros um momento de conhecer, reconhecer e se ver nas semelhanças que fazem o país se aproximar mais dos seus vizinhos e parentes.

 

Por que isso nos chamou atenção?

 

Cultura tem tudo a ver com comportamento, consumo, mercado, e muito do que sempre olhamos por aqui. E observar essa agitação cultural abre muitas janelas de possibilidades. O álbum de Bad Bunny é apenas um exemplo de como símbolos culturais e comportamentais antes vistos como nichados e específicos demais podem se tornar massificados e se tornar fenômenos de comunicação, show, marca, tudo.

 

A capa do álbum do Bad Bunny, que mostra uma "simples” paisagem de bananeiras e cadeiras de plástico, conseguiu rapidamente se transformar num viral e numa imagem facilmente reconhecível por milhões de pessoas (além de ser uma bela aula de fotografia “imperfeita” em tempos de imagens geradas por inteligência artificial).  

 

Além disso, apesar da escolha de símbolos propriamente latinos, o cantor fala em suas letras de sentimentos universais, dialogando além do seu público-alvo imediato. A música que dá nome ao álbum, DeBí TiRAR MáS FOToS, fala sobre o sentimento de tempos que foram melhores e a importância de registrar os momentos ao lado das pessoas, ecoando o sentimento de nostalgia e a tentativa de valorização do presente, que são parte da mentalidade coletiva atual.

 

O fenômeno cultural latino vai além da música. Nos últimos anos, o efeito streaming também tem ajudado a reforçar a potencia econômica da América Latina. Streamings como Netflix e HBO têm aportado investimentos massivos em produções locais em países como México, Argentina e Brasil, emplacando campeãs de audiência dentro e fora dos países falantes de espanhol e português. Foi o caso da novela brasileira Beleza Fatal, que levou o produto das novelas já tão conhecido no Brasil para a HBO. Com o sucesso, a novela foi confirmada para a segunda temporada em dezembro de 2025.

Beleza Fatal - HBO Max

 

Cultura vai muito além da estética, e a visibilidade cultural atrai confiança econômica. Pode ser o início da manifestação de um soft power latino, semelhante ao que vimos por décadas com os EUA e mais recentemente com a Coréia do Sul. E quando o mundo consome mais da cultura latina, as marcas globais entendem que precisam estar presentes fisicamente e estrategicamente na região. A revista britânica "The Economist" apontou a América Latina como um dos principais motores da indústria cultural neste ano.

 

A região tem demonstrado crescimento no IED (Investimento Estrangeiro Direto), o que pode significar novas oportunidades econômicas para o local. Diversas empresas globais como AirBnB, H&M e Nubank estão expandindo suas atuações na América Latina. Marcas como a própria H&M, não estão apenas abrindo lojas, mas também criando coleções e campanhas específicas para o público latino, enxergando a região como forte formadora de opinião, para além do consumo passivo.

Campanha H&M no Brasil

E o design nisso tudo?

 

Enquanto muitas marcas no mundo têm feito um movimento de universalização e "washing” de seus posicionamentos, se refletindo em tons de voz neutros e logos padronizadas, a efervescência da cultura latina que estamos assistindo traz uma oportunidade para que as marcas deixem de ter vergonha de suas raízes culturais.

 

Com os consumidores se identificando mais e sentindo orgulho daquilo que tem de único em seu território, essa é uma oportunidade para que a autenticidade local possa brilhar e se destacar. A tipografia vernacular tipicamente latina é um grande exemplo disso: o design que vem das ruas e pode ser "elevado" à sua máxima potencia, tendo a capacidade de comunicar muito mais com muito menos esforço, pois a identificação cultural é instantânea.  

Randolpho Lamonier

É claro que a estética e a arte latino-americana sempre estiveram aí, porém, nem sempre foram consumidas, apreciadas, ou sequer conhecidas, nem mesmo pelos conterrâneos. Num momento de crise política e econômica no mundo, mas sobretudo no Norte Global, parece que estamos vivendo um movimento em que o Sul Global busca beber de suas próprias fontes culturais, sejam elas novas ou antigas. Para o Brasil, esse é um momento ainda mais ímpar, para que enfim possamos enxergar as nossas raízes latino-americanas não apenas como potência cultural, mas também estratégica e econômica.

Até a próxima mordida.

Por Veronica Portugal

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