
No One
O desejo de viver o inesperado
Qual foi a última vez que você viveu algo pela primeira vez? O sentimento positivo que surge quando vivemos uma experiência desse tipo pode ser resumida na expressão “serendipidade”, que pode ser traduzida como a oportunidade de encontrar uma boa coisa quando não se está procurando por ela.
A serendipidade pode ser vista como um estado de espírito, uma experiência de vida ou um processo criativo. Ela pode se tornar mais do que um sentimento, mas também uma busca ativa pelo inesperado como forma de alimentar o surgimento do novo. Em tempos de sobrecarga e fadiga sensorial, capturar a atenção e criar experiências capazes de conquistar as pessoas é um desafio. Por isso, provocar surpresa é um caminho que faz todo sentido hoje.

Notamos que mais pessoas estão buscando ativamente viver o extraordinário. De uma perspectiva psicológica, as surpresas positivas beneficiam o cérebro e as emoções positivas. Estímulos inesperados interrompem a rotina e abrem espaço para a formação de memórias mais fortes. A surpresa nos faz parar, observar e aprender. Por isso, ela é capaz de impulsionar a resposta de atenção e motivação.
Já do ponto de vista de marca, um estudo recente mostrou que a serendipidade influencia positivamente o consumidor, incluindo sentimentos de satisfação e prazer, percepções de significado de uma experiência, probabilidade de recomendar uma empresa e probabilidade de comprar mais produtos de uma empresa.
Recentemente, um site criado na Austrália nos chamou atenção: O site se propõe a ser um “Google maps ao contrário": em vez da rota mais eficiente, o site oferece direções erradas de propósito, ou, como os criadores definem, “uma maneira de se perder, visitar um bar desconhecido ou ir a um restaurante onde ninguém te conhece”. Mas porque alguém iria querer viver essa experiência?
Na era dos algoritmos de recomendação, a possibilidade de viver uma descoberta por acaso foi reduzida. De músicas a filmes, roupas a restaurantes, boa parte do que chega até o consumidor hoje passa pelo filtro de algoritmos de personalização. O que, por um lado, auxilia na otimização da experiência de consumo, também cria, por outro lado, uma bolha de previsibilidade quase impossível de ultrapassar.

Quando eliminamos a surpresa, retiramos um elemento essencial da equação do que forma uma experiência memorável. Como aponta o Conselho Cultural da Rolling Stones, à medida que a IA remodela ainda mais a forma como se acessa e consome tudo, de entretenimento à mídia, é preciso equilibrar as experiências personalizadas com os momentos abertos ao novo.
Em um mundo dominado pelos reviews e listas infinitas de avaliações de lugares, planejamento de rotas e algoritmos de recomendação, o desejo de escapar da previsibilidade é crescente, abrindo portas para criações como o mapa feito para se perder na cidade. É no inesperado que surge a inovação, e é na naturalidade do dia a dia que se constrói cultura.
Os sentimentos de serendipidade emergem quando um encontro é positivo, inesperado e atribuído a algum grau de acaso. E uma parte do mercado está buscando ativamente criar esses sentimentos em seus consumidores. Este ano, o fenômeno das caixas-surpresa, ou caixas misteriosas, que teve origem nos mercados asiáticos, decolou no mundo todo.
As blind boxes são caixas misteriosas onde você compra sem saber exatamente o que vai receber. A tag #BlindBox no TikTok tem mais de 2 milhões de posts, e alguns criadores na plataforma construíram audiências enormes postando conteúdo de unboxing de caixas surpresa, elevando a ideia da experiência compartilhada.

As caixas surpresa também podem oferecer uma oportunidade para marcas com preços mais altos alcançarem clientes com orçamentos menores. A Le Creuset, por exemplo, investiu numa promoção de caixas surpresa, que ofereceu aos consumidores a chance de comprar uma caixa misteriosa que custa $50 com até $350 em produtos-surpresa dentro.
Em 2026, essas experiências de marca nunca fizeram tanto sentido. Num momento de fadiga da decisão e excesso de automatização, os consumidores estão buscando pelo inesperado.

O Barômetro de Confiança da Edelman revelou que 73% das pessoas afirmam que sua confiança em uma marca aumentaria se ela refletisse autenticamente a cultura atual. Quando quase três quartos do público potencial busca por autenticidade cultural, optar pela segurança e previsibilidade 100% do tempo pode ser uma perda de oportunidade.
Estimular a serendipidade é também uma forma de ultrapassar a barreira da fadiga da escolha, permitindo que os consumidores optem pelo modo aleatório sem precisar decidir. Além disso, o fator surpresa é um aliado na criação de novas memórias de marca, (re)capturando a atenção diluída a partir de estímulos inesperados. Em meio ao planejamento, a sua marca está deixando espaço para o novo?
Por Verônica Portugal
Até a próxima mordida.