23 de março

Textura

No One

O mundo à nossa volta está perdendo alma?

 

No dicionário, textura é definida como o aspecto visual ou tátil de um objeto. É tudo aquilo que adiciona profundidade, realismo, identidade, e provoca sensações que podem ser absorvidas pelos nossos sentidos, como o tato e a visão. A textura, nesse sentido, pode ser vista como uma forma de linguagem, é um elemento que nos ajuda a perceber e comunicar com o mundo.

 

Desde pequenos, criamos as nossas percepções sobre aquilo que nos cerca a partir das texturas, não é à toa que bebês são viciados em tocar, em puxar, em cheirar, em olhar fixamente. Eles estão aprendendo sobre o mundo. Sendo assim, a textura também é um elemento essencial nas artes, no design, no branding, e em tudo que envolve provocar sensações.

 

Fosco, brilhante, colorido, escuro, grosso, fino, macio, áspero… Cada textura provoca um sentimento. Então, o que acontece quando as coisas começam a perder a textura, ou quando elas mudam tanto, que já não reconhecemos mais as texturas à nossa volta como reais?

 

Por que isso nos chamou atenção?

 

Pense sobre a introdução massiva das telas em nossa vida. Essa transformação tornou a nossa realidade mais tátil, no sentido de podermos fazer muitas coisas com o touch screen, mas muito menos texturizada. Se antes sentíamos o toque dos botões do telefone ou das páginas dos livros, hoje nossa superfície de contato é sempre a mesma: o fosco gelado das telas de vidro.

 

Na nossa realidade digital, as texturas são simulações. E no digital, o simulado e o artificial são mais do que uma característica inerente ao formato, mas também viram estética e ditam gostos que vão além das telas.

 

Em vez de buscar trazer realismo às texturas que vemos através da tela, fomos pelo caminho contrário: a pele precisa ser sem poros, os cabelos não possuem frizz, as casas e estabelecimentos comerciais são herméticos, muitas vezes parecendo-se mais com clínicas estéticas, lembrando muito pouco os ambientes onde as pessoas reais vivem, comem, bagunçam, existem.

 

 

O “irreal” virou estética também nas telas grandes. No design de produção de muitos filmes, a anterior preocupação em transmitir a textura real através dos cenários deu lugar a telas verdes, CGI, e uma escolha estética que prioriza uma imagem mais fantasiosa.

 

A falta de texturas reais pode ajudar na transmissão de uma ideia lúdica em um filme de ficção científica, por exemplo, mas pode também quebrar a imersão quando o filme se propõe a representar o mundo real como o conhecemos. Por isso, muitos filmes hoje parecem mais frios, distantes ou vazios de significado relacionável.

 

Isso não está acontecendo apenas com os filmes hollywoodianos. Com a massificação das imagens de IA, as texturas desaparecem ainda mais. Você já deve ter notado isso de forma empírica: as imagens geradas por IA muitas vezes carregam uma “aura” específica, um Q de fantasioso que nos faz bater o olho e perceber que não se trata de uma imagem real.

 

Claro, isso está ficando mais difícil de perceber. Mas as diferenças de textura entre o real e o artificial permanecem, como mostrou uma pesquisa feita por alunos da Fudan University, na China. Os pesquisadores apontaram que a textura das imagens é justamente uma das formas mais eficientes de detectar se uma imagem é gerada por IA ou não, já que imagens reais possuem padrões de pixels e texturas mais ricas.

 

E as marcas nisso tudo?

 

Uma imagem no ambiente digital pode ser apenas uma combinação de pixels enfileirados. Mas para transmitir emoções, elas precisam ir além disso.

 

A textura tem papel crucial na identificação de objetos, na interação humana com eles, e na atribuição de sentido, significado e emoções relacionadas a cada objeto. Por isso, remover as texturas reais pode trazer às interações um sentimento de distanciamento, frieza e incômodo - o que nem sempre é o caminho que desejamos provocar.

 

Em experiências de marca, brincar com os estímulos sensoriais é parte essencial da formação de vivências mais ricas. Em um mundo tão digitalizado, a maior inovação pode estar justamente nas coisas que nos reconectam com o que podemos ver, cheirar, ouvir, saborear e tocar.

 

A WGSN apontou que explorar as texturas e os sentidos é uma das estratégias de negócios mais fortes como novo indicador de valor para 2028. Construir experiências memoráveis passa por explorar os estímulos e as emoções que as texturas podem nos provocar.

 

Uma pesquisa da Ipsos mostrou que 62% dos entrevistados ainda preferem campanhas publicitárias feitas por humanos. Mas isso significa que as marcas devem abrir mão dos filtros, cenários, efeitos ou das imagens geradas por IA? De maneira nenhuma.

 

Adotar uma estética fantasiosa pode sim ser um artifício de comunicação de marca, para construir uma percepção aspiracional ou etérea, por exemplo. Mas é preciso se perguntar o que, porque, onde e quando queremos causar essas sensações.

Se o toque humano ainda é um desejo dos consumidores, explorar o potencial das texturas na comunicação das marcas passa também por entender os contextos reais das pessoas. É importante entender em quais situações brincar com o real e o irreal. Enquanto a falta de texturas ajuda a construir um visual mágico numa campanha de moda, por exemplo, na busca por um produto online, é essencial que se preservem as texturas reais do tecido ou o caimento real no corpo.  

 

As texturas são parte do enriquecimento de qualquer experiência humana e nos ajudam na construção de emoções mais complexas. Quais sensações queremos despertar nas pessoas?

por Verônica Portugal

Até a próxima mordida.

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